segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Por que não se pode ser gorda e/ou negra no Brasil?


Uma campanha de moda divulgada na semana passada causou estranheza não só em mim, mas em todo o Brasil. Quem acessa as redes sociais sabe bem que estou me referindo a campanha da CeA, alvo de críticas principalmente no twitter e no facebook pela forma ridicularizada que trouxe a imagem da cantora Preta Gil. A pobre coitada aparece com o corpo bastante afinado e com a pele bem embranquecida em fotos que divulgam uma linha própria da C&A para mulheres de manequim entre 46 e 56. A forma da cintura da cantora, por exemplo, varia de uma foto para outra, basta olhar com um pouquinho de atenção.  Mas as outras imagens não escaparam de crítica, principalmente  aquela em que a cantora aparece com cintura marcada, os braços aparentemente afinados e a pele ainda mais branca que nas demais. Ali, alguém pergunta: “A Preta Gil não pode ser preta?”


Procurada, a C&A se pronunciou apenas sobre a foto em que o ombro de Preta Gil parece ter proporções não naturais. A empresa nega o emprego "excessivo" de Photoshop e diz que  a explora um ângulo que causa a impressão de uso excessivo de recursos de edição de imagem, o que não teria sido feito. "Admiramos a Preta Gil, que pelo segundo ano estrela nossa campanha da linha 'Special for You', e lamentamos a repercussão negativa dessa foto", diz o comunicado da companhia".

Lamentavelmente, a utilização de Photoshop é prática cada vez mais comum no mundo da publicidade, e em alguns casos, os absurdos chegam a ser gritantes. Algumas celebridades já apareceram sem braços, pernas e até sem umbigo. Mas não é isso que quero discutir aqui. O que está em questão é o desrespeito com a identidade própria da celebridade, neste caso, Preta Gil. Ela é negra e gordinha, certo? Não seria esse o perfil geral da mulher brasileira? Sim, nós temos peito, bunda, cintura, e claro, mais peso. E o que há de errado nisso? Por que uma campanha de moda, que se diz preocupada em agradar esse público simplesmente deforma a garota propaganda dessa campanha?

Pouco importa. A ideia do mercado parece ser a de que este público não consome, já que cada vez mais notamos a quase inexistência de revistas ou outras publicações para mulheres negras e gordas, por  exemplo ou, ainda, a inserção da temática negra em revistas intituladas “mistas”. Falar sobre cabelo crespo é “pedir demais”. Falar das curvas do corpo e como adaptar peças, então, é sonho e talvez por isso, a CeA não tenha habilidade para tratar do assunto.

Mas, vamos em frente: Outra personalidade que chama a atenção pelo processo de branqueamento, esse não causado pelo photoshop é a cantora de funk que está no topo das paradas atualmente... Olhando uma foto antiga de Anitta e comparando com as atuais, vemos claramente como houve o embranquecimento da sua figura e talvez isso explique a aceitação que a mesma tem nos principais canais televisivos, ao contrário de MC Beyonce, negra que ganhou fama em 2012 com a música "Fala Mal de Mim", com mais de 15 milhões de visualizações no youtube.


O bonde das maravilhas é outro, que é levado à mídia apenas como o inusitado, o esdrúxulo, enquanto a Anitta aparece como a menina boazinha, a funkeira voltada para a cultura pop, com produção higienizada e pronta para o consumo. Longe de mim avaliar ou discutir  a qualidade das letras desses funks, estou falando sobre pessoas e a repulsa à essas mulheres, não somente porque a maioria das funkeiras são negras, mas porque o funk tem raizes históricas e é intimamente ligado à cultura negra brasileira.

Artistas como a Anitta são reposicionadas em uma nova classe social, que embranquece suas expressões artísticas e as torna muito mais “adequadas” para a televisão e para os padrões aceitáveis no país.

A Anitta é um exemplo de uma mulher miscigenada que foi embraquecida e “enriquecida” para que o seu trabalho artístico fosse valorizado. Sabendo disso, vale pensar: será que Anitta é aceita por ser reconhecida como uma mulher branca ou terá embranquecido em busca de aceitação? Se outras funkeiras passassem por um processo de embraquecimento e elitização, seriam abraçadas pelos programas da televisão aberta? Fica a pergunta no ar.

Um comentário:

  1. Acho que sim... Exemplo de varias outras como Kelly Key, Perla, Tati quebra barraco, Valesca Popozuda entre outras que mudaram radicalmente seu visual depois da "fama". http://www.olhaofuxicorevista.com/2013/05/as-funkeiras-mais-famosas-antes-e.html

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