Nasce em Franca, SP, em 1914, o segundo filho de Dona Josina, a doceira da cidade, e Seu Bem-Bem, músico e sapateiro. Abdias cresce numa família coesa, carinhosa e organizada, porém pobre, e vai se diplomar em contabilidade pelo Atheneu Francano em 1929.Com 15 anos, alista-se no exército e vai morar na capital São Paulo. Na década dos 1930, engaja-se na Frente Negra Brasileira e luta contra a segregação racial em estabelecimentos comerciais da cidade. Prossegue na luta contra o racismo organizando o Congresso Afro-Campineiro em 1938. Funda em 1944 o Teatro Experimental do Negro, entidade que patrocina a Convenção Nacional do Negro em 1945-46.
A Convenção propõe à Assembléia Nacional Constituinte de 1946 a inclusão de políticas públicas para a população afro-descendente e um dispositivo constitucional definindo a discriminação racial como crime de lesa-pátria.
À frente do TEN, Abdias organiza o 1º Congresso do Negro Brasileiro em 1950.
Militante do antigo PTB, após o golpe de 1964 participa desde o exílio na formação do PDT. Já no Brasil, lidera em 1981 a criação da Secretaria do Movimento Negro do PDT.
Na qualidade de primeiro deputado federal afro-brasileiro a dedicar seu mandato à luta contra o racismo (1983-87), apresenta projetos de lei definindo o racismo como crime e criando mecanismos de ação compensatória para construir a verdadeira igualdade para os negros na sociedade brasileira. Como senador da República (1991, 1996-99), continua essa linha de atuação.
O Governador Leonel Brizola o nomeia Secretário de Defesa e Promoção das Populações Afro-Brasileiras do Estado do Rio de Janeiro (1991-94). Mais tarde, é nomeado primeiro titular da Secretaria Estadual de Cidadania e Direitos Humanos (1999-2000).
As raízes africanas mergulham em terra brasileira, e brota no interior de São Paulo e Minas a vida do menino Abdias. Nascido em Franca, capital dos calçados, conheceu descalço a vida rural e urbana daquele tempo ainda perto da escravatura. Trabalhava na cidade e brincava nas fazendas onde sua mãe prestava serviços, às vezes como ama-de-leite. Desse tempo ficam as lembranças e os anseios de liberdade expressos no vôo de pássaros e borboletas.
Como adulto, os múltiplos talentos e formas de expressão de Abdias Nascimento voltam-se todos para o avanço da causa anti-racista.
Na dramaturgia, poesia e pintura, no engajamento na luta internacional pan-africanista e na atuação como deputado federal, senador e secretário de estado, desenvolve aspectos dessa luta, a que dedicou plenamente uma vida de 90 anos
Confira abaixo parte do pronunciamento de Abdias Nascimento ao receber o título de Doutor Honoris Causa da Universidade Federal da Bahia:
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Ó Exu
ao bruxoleio das velas / vejo-te comer a própria mãe / vertendo o sangue negro /que a teu sangue branco /enegrece ao sangue vermelho /aquece nas veias humanas /no corrimento menstrual
À encruzilhada dos teus três sangues / deposito este ebó /preparado para ti
[...]
Exu-Yangui / príncipe do universo e último a nascer / receba estas aves e os bichos de patas que trouxe para satisfazer /tua voracidade ritual / fume destes charutos / vindos da africana Bahia / esta flauta de Pixinguinha / é para que possas chorar /chorinhos aos nossos ancestrais /espero que estas oferendas /agradem teu coração e /alegrem teu paladar /num coração alegre é um estômago satisfeito e /no contentamento de ambos / está a melhor predisposição /para o cumprimento das / leis da retribuição / asseguradoras da harmonia cósmica.
Invocando estas leis / imploro-te Exu / plantares na minha boca o teu axé verbal [...]
Teu punho sou / Exu-Pelintra / quando desdenhando a polícia / defendes os indefesos/ vítimas dos crimes do esquadrão da morte / punhal traiçoeiro da / mão branca / somos assassinados
porque nos julgam órfãos / desrespeitam nossa humanidade
[...]
Exu
tu que és o senhor dos / caminhos da libertação do teu povo / sabes daqueles que empunharam / teus ferros em brasa/ contra a injustiça e a opressão / Zumbi Luiza Mahin Luiz Gama / Cosme Isidoro João Cândido / sabes que em cada coração de negro/ há um quilombo pulsando / em cada barraco / outro palmares crepita / os fogos de Xangô / iluminando nossa luta / atual e passada
Ofereço-te Exu
o ebó das minhas palavras / neste padê que te consagra / não eu porém os meus e teus
irmãos e irmãs em Olorum / nosso Pai/ que está no Orum
Laroiê!
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