
Em meu peito vazio de despeito Oxum fincou o seu ixé sou o peixe mergulhado no canto do pássaro odidê pousado na folha da vida trinando a ternura que aconchega a criança [...]
Existo em minha natureza Ori levedado pelos Orixás embora o costado dos ancestrais clame a costa dos escravos proclame o cravo cravado no lombo me tombando no tombo da contra-costa rebelada do meu axé inflamando na chaga do congo a chama incendiária do quilombo [...]
Ouçamos o pipocar do couro retesado (ó agadá da transformação) rompendo a couraça do insensível mundo branco na sola dos pés sangrentos temos dançando o madrigal da escravidão o minueto do tráfico o fado do racismo agora na pele flamejante dos tambores dancem eles o nosso baticum de guerra até despontar aquela aurora de dançar o afoxé da nossa batalha final vitoriosa
Entre núvens rubras palpita no meu peito o ixé de Oxum às batidas do rum sigo os labirintos da minha alma axé rum ruminador do silêncio sobre nós imposto rum rumpi lé levando nas asas do ouvido os raios do nosso sol brilhante e jamais posto lé rum rumpi rompedor do cerco dos abutres alvacentos corvejando sob o céu desolado de nossa diáspora compulsória
Empunho o agadá obrigação a Ogum e Ifá não é tempo de reclamar nem tempo de chorar tempo é de afirmar nosso ser sem mendigar nosso direito ao poder tempo é de batalhar a guerra secular ao invés de lamentar ou implorar invés de só gritar lutar invés de vegetar e conformar lutar invés de evadir e sonhar lutar semear a luta com decisão ampliá-la com ardor e paixão sem temer a incompreensão do inimigo ou do irmão desdenhar o elogio e o louvor a este mero ato de fraterno amor olhar para além do egoísmo e da glória abrochar no coração o ixé da bravura certos de que à vitória pouco significa nossa vida e nada importa a sepultura [...]
Vem do fundo escuro do tambor esse aflito olhar magoado (não vencido apenas derrotado) das irmãs e irmãos em África fixo olhar pungente absorvendo a beleza vital do meu corpo incrustação do ixé projeção amorosa de Oxum em minha origem plantado por desígnio paterno de Olorum o olhar a devolvendo à intensidade e pungência da antiga luta comum processada à regência do agadá transformador e do nosso cálido recíproco e solidário amor
Ora ie iê ô!