As falas das crianças, no documentário “Brincando com os deuses” ilustra bem o tema do meu comentário de hoje e que pode ser determinante na construção da identidade de um ser humano. Me refiro à inserção – ou não- de uma criança a uma religião, seja ela qual for. Nada lhe deve ser imposto, mas vez por outra vemos os pais obrigando meninos e meninas a irem a igrejas ou a terreiros de candomblé. Entretanto, a vontade dessas crianças deve vir em primeiro lugar... E comigo foi assim. Desde que me entendo por gente, vejo minha mãe, que é ialorixá, envolvida com suas atividades como consultas com jogo de búzios, mas nunca fui obrigada a acompanhá-la nas festas da casa do seu pai de santo ou muito menos a participar de alguma outra maneira. Mas eu gostava, me sentia envolvida pelo som dos atabaques, pelo ritmo e dança e também pelos cânticos, em iorubá.
Aos 9 anos, enquanto assistia a uma festa, fui escolhida pela Iansã que estava manifestada e, minha mãe para ser sua Ekede, a primeira Ekede do Ilê Axé Oyá Mesi. À época, não entendia direito o que isso significava, mas pacientemente, minha mãe me explicou TIM TIM por TIM TIM o que isso representaria e o que mudaria na minha vida, caso aceitasse o cargo. Aceitei, já se vão 19 anos e nunca me arrependi da decisão tomada, ainda que, em muitos momentos, tivesse me sentido constrangida com a indiscrição e olhares preconceituosos. Sempre encontrei respostas que me livravam do problema momentâneo, mas ainda hoje preciso lidar com isso...
Mas o fato é que muitas crianças, assim como eu, que são iniciadas no candomblé, não sabem lidar com isso, principalmente por causa da discriminação. Para discutir o assunto e discutir políticas públicas, o Coletivo de Entidades Negras, a Associação Obatalandê, junto a outras casas de candomblé. O evento será realizado neste domingo, dia 28 de julho, das 8 as 17 horas, com as participações do professor e pesquisador Jaime Sodré além da yalorixá Jaciara Ribeiro e ogans do ilê axé abassá de Ogum, que vão discutir temas como a identidade ancestral.
Com base nisso, a pesquisadora da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Stela Guedes caputo também já se debruçou e escreveu o livro educação nos terreiros, com base em uma pesquisa feita na década de 90, que apontou grande facilidade das crianças sobre o toque, a dança, a facilidade com o ioruba, mas ao mesmo tempo mostrou como essas crianças se sentiam discriminadas na escola. Na tentativa de lidar com isso, a pesquisadora percebeu que as crianças desenvolviam estratégias para lidar com o preconceito nas escolas e algumas chegavam a dizer que contraíram leucemia para não assumir que fizeram o santo. É isso o que sinaliza a pesquisadora, em um vídeo da tv o dia, disponível na internet. “Elas se diziam católicas, por exemplo. Algumas chegam a dizer que estavam doentes no período da feitura pro santo, que é o momento especial na vida do candomblecista, então ele tem que raspar a cabeça, usar branco durante um período (...) então são estratégias que elas inventam, mas que são estratégias de sofrimento, por que ninguém quer esconder aquilo que ama, aquilo que é e acredita”, ressalta.
Neste contexto, a escola poderia ter um papel de suma importância, já que o ensino religioso deveria servir para acabar com essa discriminação. Mas aqui no Brasil, a base deste ensino religioso é o catolicismo. A lei 10. 639/ 2003, que institui a obrigatoriedade do ensino de história da áfrica e afrobrasileira na educação básica de todo o país, mas na prática o que se tem é a inexistência de professores especializados no assunto ou a superficialidade dos que já estão em sala de aula. O que essa lei propõe é que os professores ressaltem em sala de aula a cultura afro-brasileira como constituinte e formadora da sociedade brasileira, na qual os negros são considerados como sujeitos históricos, valorizando-se, portanto, o pensamento e as ideias de importantes intelectuais negros brasileiros, a cultura e as religiões de matrizes africanas. Enquanto isso não acontece, a escola continua sendo um lugar de enfraquecimento e crianças continuam com suas vivências veladas.
“É o que eu chamo de uma esquizofrenia na constituição. Ela garante o ensino religioso e que o estado é laico e diz ainda que não pode ter aliança com nenhuma igreja. Mas como, se ela deixa que o livro didático seja católico? É um entrave na luta contra a discriminação religiosa. As crianças que eu conheci na época da reportagem que estavam com idades entre 2 e 4 anos, hoje são adultas e os filhos destas crianças que eu entrevistei há 20 anos, passam pelo mesmo preconceito que os seus pais passaram. É uma discriminação que vem sendo reforçada de geração em geração”, enfatiza Stela Guedes Caputo.
quinta-feira, 25 de julho de 2013
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