terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Grande encontro de sete divas negras no TCA

Por Suzana Varjão
Salvador foi escolhida para sediar o lançamento do DVD Mães D' Água - Yèyé Omó Ejá, que perpetua o encontro inédito de sete grandes intérpretes negras da Música Popular Brasileira, proporcionado pela Fundação Cultural Palmares e pelo Ministério da Cultura. O palco do acontecimento é o do Teatro Castro Alves, em Salvador (Bahia), onde, em 8 de dezembro próximo, às 21h, um grande show irá reconstituir a celebração em homenagem à rainha das águas.
O concerto que originou o DVD foi realizado no Teatro Nacional de Brasília, em agosto último, para celebrar os 22 anos de criação da Fundação Palmares. Sob a regência do maestro Angelo Rafael Fonseca, Daúde, Margareth Menezes, Mart´nália, Luciana Mello, Rosa Marya Colin e Paula Lima executaram um repertório composto por canções que saúdam Iemanjá. Como linha-guia, os sete mais conhecidos arquétipos da iyabá (feminino de orixá) das águas.

ORIGENS - Yèyé significa mãe, em yoruba; yèyé omó ejá 1, mãe cujos filhos são peixes; mãe d´água - ou Iemanjá. Mito africano reverenciado em quase todo o mundo, Iemanjá nasceu negra, mas foi embranquecendo, na esteira do mimetismo dos negros escravizados com a cultura de seus dominadores. Foi para reafirmar as origens desta bela lenda que Zulu Araújo concebeu o concerto, que tem direção geral de Elisio Lopes Jr., direção artística de Fábio Espírito Santo, figurinos de Márcia Ganem e luz de Irma Vidal.

O DVD foi pré-lançado pela TV Brasil, em 20 de novembro último, às 22h, como ponto alto da programação que celebrou o Dia Nacional da Consciência Negra. No lançamento oficial, em Salvador, haverá a reprodução do encontro, com quase todas as divas. Somente Paula Lima não poderá estar presente, e será substituída por Mariene de Castro. No repertório, composições de Dorival Caymmi a Lenine, passando por Vinícius de Moraes, Baden Powell e Candeia, entre muitos outros.

O MITO - Reza a mitologia yoruba que o(a) dono(a) do mar é Olokun - deus masculino em alguns países africanos, feminino em outros. Yemojá (yèyé + omó + ejá) é saudada como odò (rio) ìyá (mãe) pelo povo Egbá (subgrupo dos Yoruba da Nigéria), de onde ambas as divindades são originárias. Mas o mito correu mundo, e Yemojá instalou-se em lagos doces e salgados, enseadas, quebra-mares e junções entre rio e mar, assumindo diferentes formas, etnias, vestes, nomes, temperamentos, poderes.

Numa das mais recorrentes versões da lenda africana, Yemojá é considerada a mãe de todas as divindades yorubas. Nascida da união de Obatalá (o Céu) com Odudua (Terrestre), desposa o irmão, Aganju, com quem tem um filho, Orungã. A representação africana de Édipo apaixona-se pela mãe, que, ao fugir de sua perseguição, cai de costas e morre. Seu corpo dilata-se. Dos grandes seios brotam duas correntes de água, que formam um grande lago; do ventre rompido, nascem os deuses e deusas.

Celebrada em vários países, notadamente nos da Diáspora Africana, Yemojá (Yemojá/ Iemojá) é quase sempre representada como uma divindade branca, sendo chamada, também, de Yemayá (Yemaya) e de Iyemanjá (Yemanjá/Iemanjá), como é mais conhecida no Brasil. Uma das poucas nações que assumem a etnia original da iyabá é Cuba. Na ilha de Fidel, Iemanjá é negra, governa os mares, usa as cores azul e branca, assume o nome cristão de la Virgen de la Regla e é a padroeira dos portos de Havana.

BRASIL - Em nosso País, Iemanjá também é considerada a rainha do mar, mas sua representação simbólica é predominantemente branca. É festejada em vários estados, mas as datas diferem de um para outro. No Rio de Janeiro, por exemplo, o culto ocorre em 31 de dezembro, na passagem de ano, quando os devotos oferecem presentes à iyabá, na esperança de que ela carregue os problemas para o fundo do mar e faça emergirem dias melhores.

Na Bahia, a celebração ocorre em 2 de fevereiro, dia de Nossa Senhora de Candeias, uma das santas católicas com as quais a divindade africana foi camuflada, para a sobrevivência do culto. Além de Nossa Senhora de Candeias, Iemanjá foi também sincretizada com a Virgem Maria, Nossa Senhora dos Navegantes, Nossa Senhora da Conceição e Nossa Senhora da Piedade. Entre as oferendas que a vaidosa iyabá mais gosta estão espelhos, pentes, flores, sabonetes e perfumes.

O ESPETÁCULO - Reunidas em blocos temáticos, solando ou em duetos, as sete intérpretes negras enfocam, no concerto, a iyabá (o mito, a mulher); e sua morada (os mananciais). Mas o mimetismo entre divas e divindades não é linear, ou óbvio. Está expresso nas canções, nos "climas" visuais (iluminação, figurino, adereços...) e em vídeos, que exibem ritos ligados a Iemanjá e trechos de uma entrevista com uma mãe de santo, filha de Iemanjá.

É um mimetismo, enfim, tão criativo quanto a idéia geral da programação que comemorou os 22 anos de luta em defesa da cultura afro-brasileira. Como se fizesse uso das sete anáguas com as quais a rainha das águas protege seus filhos, a Fundação Cultural Palmares lançou incentivos culturais e interconectou sete capitais brasileiras, formando uma corrente simbólica que expressa a necessidade, o desejo e o empenho em preservar um dos maiores tesouros deste País - seu patrimônio imaterial.

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Serviço

O quê: Show de lançamento do DVD Mães D' Água - Yèyé Omó Ejá e da edição especial da Revista Palmares
Quando:
Dia 08/12/2010

Horário: 21horas

Onde: Teatro Castro Alves (Salvador, Bahia)

Convites: Distribuição gratuita na bilheteria do TCA, dias 06, 07 e 08 (o número é limitado e condicionado à lotação máxima do teatro).

Revista e DVD: Distribuição gratuita, mediante entrega de convite

Endereço: Praça 2 de Julho S/N, Campo Grande

Informações: (71) 9148 8653 - (61) 9973 6006

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