sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Gostoso até embaixo


porCristielle França

Depois de experiências inusitadas, chego a uma conclusão. A musica é capaz de quebrar barreiras antes inimagináveis e inatingíveis. Concluo que não existe musica boa ou ruim, tampouco musica desta ou daquela classe. O que existe é musicalidade, ritmo, embalo, sensações, batidas, balanço, corpos, enfim, pessoas. Advindas de diferentes pontos, com diferentes histórias, com metas e objetivos diferentes, todas se encontram num ponto especifico, para fazer a mesma coisa: requebrar.

Vou parar de poetizar e escrever o que percebi. Foram dois espaços, dois dias, dois momentos diferentes. Ir ao Salvador Fest foi inenarrável. Tudo já começou na saída de casa. Como dona de uma ousadia impar, fui vestida com a camisa colorida. Os olhares eram condenadores, como se dissessem: deus é mais, não acredito que você vai para essa festa!

Tudo bem. Segui rumo ao Parque de Exposições. Por opção, peguei o ônibus na Estação da Lapa. No fundão, as pessoas já aqueciam o gogó, e com os batuques, ensaiavam as letras das melodias mais tocadas nas rádios baianas.

Chegando lá, uma mega estrutura, com muitos palcos, opções para vários estilos: hip hop, funk, partido alto, além dele, o mestre de cerimônias: o popular pagodão.

Foi nesse espaço que tive a certeza que eu deveria escrever sobre isso, ao notar que vários símbolos, signos e sinais caracterizam o público que curte esse estilo musical. Parece uma farda, um estilo de vestimenta padrão.

Homens trajavam bermudão, camisa folgada, tênis largo, boné, brinco na orelha e o tradicional batidão. Já as mocinhas estavam caracterizadas assim: cabelos soltos ou presos – o importante é estarem com bastante umidificante ou gel grudando na testa. Maquiagem forte, com olhos e sobrancelhas bem marcados com lápis preto, e na boca, o companheiro gloss de todas as horas. As blusas do evento – todas remodeladas, no estilo frente única, faziam a combinação com a tradicional sainha da Cyclone. Alias: essa é a marca preferida dos que curtem o pagodão na periferia.

As batidas do tamborzão levam o público à loucura. Coreografias são reproduzidas, cada um a sua moda, a sua maneira. Mas o mais importante é não ficar parado. Ralando no chão, no asfalto, dando a patinha ou repetindo freneticamente o rebolation, as pessoas parecem não se importar com o que vão pensar ou com o que o ato possa significar aos outros. Elas se importam apenas em sentir o que o momento proporciona.

Mas essa não é a máxima da vida?

Pois é, ainda há quem critique esse comportamento por não ser o “politicamente correto...”. O evento se estendeu até o fim da noite de domingo. Excelente oportunidade para quem queria uma fuga de um dia comum. Eu consegui. Fugi.

O contraponto de alguns comportamentos viria semanas depois. Numa quarta-feira, os Barões atraíram os baroezinhos da Orla – me perdoem pelo trocadilho barato. Na Madre, a banda realizava o que se convencionou chamar de ensaio (ensaiam pra quê mesmo?). Mas eu fui. Fui como convidada a cobrir a festa enquanto integrante da equipe do "Gostoso ate embaixo". Isso mesmo...O blog é novo, mas tem um nome super sugestivo e que dispensa apresentações.

Marcada para as 22h, a festa só começou as 0h30. Tudo bem, afinal era dia do Jogo entre Vitória e Santos, primeiro jogo da final da copa do Brasil, no Pacaembu, que distraia o público enquanto o show não começava. Depois de muita espera, num espaço com muito neon, Patricinhas e Mauricinhos estavam por toda a parte. Quem não era, tentava se portar como tal para pertencer àquele meio. Eu não me importava com isso. O espaço começou a ser tomado, foi enchendo e quando o Raghatony começou a tocar, já tinha bastante gente aquecida ao som das músicas de boate.

Depois de muita agitação, os BARÕES começaram enfim a tocar. A Madrre já estava lotada. A elite do pagodão estava muito bem vestida para a ocasião. Ao invés de cyclone, viase roupas, perfumes e tênis importados, maquiagens bem feitas e tênis recem lançados. Como se não bastasse, depois das entrevistas, uma cena me chamou a atenção: em meio à gente quebrando até embaixo, e derretendo a produção, uma mesinha de destacava: Um balde champanhe com patys e meuricios ao redor, ao invés de cnsumirem a idolatrada latinha de cerveja de1 real.

Foi demais pra mim! Infelizmente, no melhor da festa, tive que pedir PPU. Em plena Madrugada de quinta-feira, saíamos da festa, feita para os abastados, que não precisam acordar cedo no dia seguinte para bater o ponto. Eu precisava, e preciso, por isso sai de lá querendo retornar para avaliar melhor o comportamento humano. Por enquanto, o que pude notar foi o seguinte: as diferenças sociais são sensíveis até no pagodão. Porém, ele rompe os limites culturalmente estabelecidos, de que existe música especifica para cada grupo social. O pagodão rompe esses limites, invade o mundinho das elites, e ainda que regados a champanhe, os nascidos em berço de ouro quebram gostoso até embaixo, e com a mão na cabeça pra não perderem o juízo.

2 comentários:

  1. Maravilhoso!
    Parabéns pelo saque...mandou muito bem e retratou com louvor o que vemos e, muitas vezes, deixamos passar despercebido aos nossos olhos tão cheios de conteúdo.
    Bjos do admirador.

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  2. é verdade,o pagodão "une"todas as classes.para o povão da periferia,junto com o arrocha,o hip hop e outros servem juntamente com o alcool como válvula de escape para as mazelas do cotidiano.para os "barões"serve para "tirar onda".é da vida.solta o tamborzão!

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